Apóstolos
Os 12 Apóstolos de Jesus Cristo
1. Simão Pedro (São Pedro)
Origem e chamado: Nascido em Betsaida, na Galileia, Pedro era pescador junto com seu irmão André. Seu nome original era Simão bar-Jonas (filho de Jonas). Jesus o renomeou como Pedro (Cefas em aramaico), que significa “pedra” ou “rocha”, dizendo “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja”.
Personalidade e papel: Pedro era impetuoso, emotivo e apaixonado. Foi ele quem confessou Jesus como o Messias em Cesareia de Filipo. Fazia parte do círculo íntimo de Jesus, junto com Tiago e João, presenciando eventos especiais como a Transfiguração, a ressurreição da filha de Jairo e a agonia no Getsêmani. Apesar de sua fé ardente, negou Jesus três vezes na noite da prisão, mas após a ressurreição foi restaurado quando Jesus lhe perguntou três vezes “Tu me amas?” e lhe confiou: “Apascenta minhas ovelhas”.
Ministério: Tornou-se o líder reconhecido dos apóstolos após Pentecostes. Foi o primeiro a pregar publicamente (Atos 2), realizou o primeiro milagre apostólico (cura do coxo na porta do Templo), teve a visão que abriu a Igreja aos gentios (visão do lençol com animais impuros), e foi fundamental nos primeiros concílios da Igreja. Segundo a tradição, liderou a comunidade cristã em Roma.
Martírio e legado: Morreu martirizado em Roma durante a perseguição de Nero, por volta de 64-67 d.C. A tradição diz que pediu para ser crucificado de cabeça para baixo, por não se considerar digno de morrer da mesma forma que Cristo. É considerado pela Igreja Católica o primeiro Papa e o fundador da sé romana. A Basílica de São Pedro no Vaticano foi construída sobre seu suposto túmulo. É celebrado em 29 de junho.
2. André
Origem e chamado: Irmão de Pedro, também pescador de Betsaida. Foi originalmente discípulo de João Batista. Quando João apontou Jesus dizendo “Eis o Cordeiro de Deus”, André foi um dos primeiros a seguir Jesus, tornando-se o “Protoclete” (primeiro chamado). Imediatamente foi buscar seu irmão Simão, dizendo: “Encontramos o Messias”.
Personalidade e ministério com Jesus: André tinha uma personalidade de “conector”, sempre trazendo pessoas a Jesus. Foi ele quem apresentou Pedro ao Mestre. No episódio da multiplicação dos pães, foi André quem encontrou o menino com cinco pães e dois peixes. Quando alguns gregos queriam ver Jesus, procuraram primeiro Filipe, que foi com André levar o pedido ao Mestre.
Missão apostólica: Segundo tradições antigas, após Pentecostes pregou inicialmente na região da Cítia (atual Ucrânia e sul da Rússia), depois na Grécia, particularmente na Acaia. Fundou a sé de Bizâncio (futura Constantinopla), razão pela qual é padroeiro do Patriarcado de Constantinopla e da Igreja Ortodoxa.
Martírio: Foi martirizado em Patras, na Grécia, por volta do ano 60 d.C. O procônsul romano Aegeas ordenou sua crucificação. Segundo a tradição, foi amarrado (não pregado) a uma cruz em forma de X, onde pregou por dois dias antes de morrer. Esta cruz ficou conhecida como “Cruz de Santo André” e aparece nas bandeiras da Escócia e em outros símbolos. É celebrado em 30 de novembro.
3. Tiago Maior (Tiago, filho de Zebedeu)
Origem e chamado: Filho de Zebedeu e Salomé (provavelmente irmã de Maria, mãe de Jesus, tornando Tiago primo de Jesus), irmão de João Evangelista. Era pescador no Mar da Galileia. Jesus os chamou enquanto consertavam as redes com o pai, e ambos deixaram tudo imediatamente para segui-lo.
Personalidade: Tiago e João eram chamados por Jesus de “Boanerges” (filhos do trovão), indicando temperamento forte e zeloso. Isso se evidencia quando quiseram fazer descer fogo do céu sobre uma aldeia samaritana que rejeitou Jesus. Sua mãe Salomé chegou a pedir a Jesus que seus filhos se sentassem à direita e à esquerda no Reino, demonstrando ambição (ou fé na messianidade de Jesus).
Círculo íntimo: Junto com Pedro e João, formou o círculo mais próximo de Jesus, sendo testemunha privilegiada da Transfiguração no Monte Tabor, da ressurreição da filha de Jairo, e da agonia no Getsêmani. Esta proximidade sugere que Jesus via neles qualidades especiais de liderança e fé.
Martírio: Foi o primeiro dos doze apóstolos a ser martirizado e o único cujo martírio está registrado no Novo Testamento (Atos 12:1-2). Por volta do ano 44 d.C., o rei Herodes Agripa I, querendo agradar os líderes judeus, mandou matá-lo à espada (decapitação). Segundo tradição posterior de Clemente de Alexandria, seu acusador converteu-se ao vê-lo enfrentar a morte e foi decapitado junto com ele.
Legado: A tradição espanhola afirma que pregou na Península Ibérica antes de retornar a Jerusalém. Seus restos mortais teriam sido trasladados para Santiago de Compostela, na Galícia, que se tornou um dos principais centros de peregrinação cristã (Caminho de Santiago). É padroeiro da Espanha. Celebrado em 25 de julho.
4. João (o Evangelista)
Origem e chamado: Irmão mais novo de Tiago Maior, filho de Zebedeu e Salomé, pescador galileu. Era provavelmente o mais jovem dos doze. Possivelmente foi também discípulo de João Batista antes de seguir Jesus.
“O discípulo amado”: João é identificado pelos estudiosos como “o discípulo a quem Jesus amava”, mencionado no quarto Evangelho. Esta designação não indica favoritismo, mas uma relação de intimidade especial. Foi o único apóstolo presente na crucificação, momento em que Jesus confiou sua mãe Maria aos seus cuidados, dizendo: “Eis aí tua mãe”, e a Maria: “Eis aí teu filho”.
Personalidade e transformação: Apesar de ter sido um “filho do trovão” na juventude, João transformou-se no “apóstolo do amor”. Seus escritos posteriores são permeados pela mensagem do amor divino: “Deus é amor” e “Amados, amemo-nos uns aos outros”.
Obras literárias: É atribuído a João: o Evangelho de João (o mais teológico dos quatro), três Epístolas (1, 2 e 3 João) e o Apocalipse. Seu Evangelho foi escrito por volta de 90-100 d.C., sendo o último dos evangelhos canônicos, com ênfase na divindade de Cristo.
Ministério posterior: Após Pentecostes, trabalhou em Jerusalém, sendo reconhecido como “coluna” da Igreja junto com Pedro e Tiago (irmão do Senhor). Posteriormente estabeleceu-se em Éfeso, na Ásia Menor, onde liderou as igrejas da região. Durante a perseguição de Domiciano (por volta de 95 d.C.), foi exilado na ilha de Patmos, onde escreveu o Apocalipse.
Morte: Foi o único apóstolo que não morreu martirizado, vivendo até idade muito avançada em Éfeso, onde morreu de causas naturais por volta do ano 100 d.C. A tradição diz que, já muito idoso e incapaz de pregar longos sermões, repetia constantemente: “Filhinhos, amai-vos uns aos outros”. Celebrado em 27 de dezembro.
5. Filipe
Origem e chamado: Natural de Betsaida, a mesma cidade de Pedro e André. Foi um dos primeiros discípulos chamados por Jesus, logo após André e Pedro. O Evangelho de João relata que Jesus o encontrou e disse simplesmente: “Segue-me”. Filipe imediatamente foi buscar Natanael (Bartolomeu), dizendo: “Encontramos aquele de quem Moisés e os profetas escreveram”.
Personalidade prática: Filipe tinha uma mente prática e literal. No episódio da multiplicação dos pães, quando Jesus perguntou onde comprariam pão para a multidão, Filipe calculou que “duzentos denários de pão não bastariam”. Na Última Ceia, quando Jesus falou do Pai, Filipe pediu: “Senhor, mostra-nos o Pai”, ao que Jesus respondeu: “Há tanto tempo estou convosco e não me conheces, Filipe? Quem me vê, vê o Pai”.
Papel mediador: Como André, Filipe tinha um papel de intermediário. Quando gregos (gentios) queriam ver Jesus durante a Páscoa, procuraram Filipe, provavelmente porque seu nome era grego e ele podia falar a língua. Filipe, por sua vez, consultou André antes de levar o pedido a Jesus.
Ministério apostólico: Segundo tradições da Igreja primitiva, pregou na Frígia (atual Turquia central) e na Cítia. Há relatos de que acompanhado de sua família (tinha filhas que eram profetisas), estabeleceu uma comunidade cristã vibrante. Eusébio de Cesareia, historiador do século IV, menciona que as filhas de Filipe eram conhecidas por sua sabedoria e dons proféticos.
Martírio: A tradição mais aceita afirma que foi martirizado em Hierápolis, na Frígia (atual Pamukkale, Turquia), por volta do ano 80 d.C. Segundo relatos, foi crucificado de cabeça para baixo ou apedrejado. Alguns textos apócrifos descrevem que converteu a esposa do procônsul romano, o que levou à sua execução. Suas supostas relíquias foram encontradas em Hierápolis em 2011. Celebrado em 3 de maio (ou 14 de novembro no calendário tradicional).
6. Bartolomeu (Natanael)
Identidade: Embora chamado Bartolomeu nos Evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos, Lucas) e em Atos, é identificado como Natanael no Evangelho de João. “Bar-Tolomeu” significa “filho de Tolomeu” em aramaico, sendo provavelmente um patronímico, enquanto Natanael era seu nome próprio. Era de Caná da Galileia.
Primeiro encontro com Jesus: Filipe o trouxe a Jesus, anunciando ter encontrado o Messias. Natanael mostrou-se cético, perguntando: “Pode vir algo de bom de Nazaré?”. Quando Jesus o viu, declarou: “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há falsidade”. Natanael perguntou como Jesus o conhecia, e Jesus respondeu: “Antes que Filipe te chamasse, quando estavas debaixo da figueira, eu te vi”. Esta resposta provocou uma profunda confissão de fé: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!”.
Personalidade: Era um homem sincero, direto, estudioso das Escrituras. O fato de estar “debaixo da figueira” sugere que estava meditando ou orando, pois este era um lugar comum de estudo e oração entre os judeus. Sua resposta inicial cética mostra alguém que não aceita as coisas facilmente, mas que, uma vez convencido, se entrega totalmente.
Ministério apostólico: As tradições sobre seu trabalho missionário variam, mas convergem em algumas regiões:
Pregou na Armênia (onde é considerado padroeiro nacional junto com Judas Tadeu)
Levou o Evangelho à Índia, possivelmente acompanhando Tomé
Trabalhou na Mesopotâmia e na Pérsia
Algumas tradições mencionam a Arábia Feliz (atual Iêmen)
Martírio: A tradição mais conhecida relata um martírio brutal: teria sido esfolado vivo (tirada sua pele) e depois crucificado ou decapitado em Albanopolis, na Armênia, por ordem do rei Astiages, por volta do ano 71 d.C. Por isso, na arte cristã, Bartolomeu é frequentemente representado segurando sua própria pele ou uma faca de esfolador. Michelangelo o retratou assim no Juízo Final da Capela Sistina. Celebrado em 24 de agosto.
7. Tomé (Dídimo)
Nome e origem: Tomé (do aramaico “Ta’oma”) e Dídimo (do grego) significam ambos “gêmeo”, mas não sabemos quem era seu irmão gêmeo. Era galileu, mas pouco mais se sabe sobre sua origem.
Personalidade e momentos marcantes: Tomé era realista, leal, mas também melancólico e questionador. Três episódios nos Evangelhos revelam seu caráter:
Lealdade: Quando Jesus decidiu ir à Judeia após a morte de Lázaro, apesar do perigo, Tomé disse aos outros discípulos: “Vamos também nós para morrermos com ele” (João 11:16), demonstrando coragem e lealdade.
Honestidade intelectual: Na Última Ceia, quando Jesus disse “conheceis o caminho para onde vou”, Tomé respondeu honestamente: “Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?” Esta pergunta provocou uma das mais profundas revelações de Jesus: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”.
A dúvida e a fé: Estava ausente quando Jesus apareceu aos discípulos após a ressurreição. Quando lhe contaram, declarou: “Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, e não puser o dedo no lugar dos cravos, e não introduzir a minha mão no seu lado, de modo algum acreditarei”. Uma semana depois, Jesus apareceu novamente e convidou Tomé: “Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; estende a tua mão e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente”. Tomé fez então a mais completa profissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus!”.
“Tomé, o incrédulo”: Embora conhecido como “incrédulo”, Tomé representa na verdade a honestidade de quem busca evidências antes de crer. Jesus não o condenou, mas o acomodou, afirmando depois: “Bem-aventurados os que não viram e creram”.
Ministério apostólico: A tradição mais forte e antiga afirma que Tomé evangelizou a Pártia (Pérsia/Irã) e chegou até a Índia. A Igreja Sírio-Malabar em Kerala, no sul da Índia, afirma ter sido fundada por Tomé em 52 d.C. Há evidências históricas de comunidades cristãs muito antigas nesta região, conhecidas como “Cristãos de São Tomé”. Os “Atos de Tomé”, texto apócrifo do século III, relatam detalhadamente sua missão na Índia.
Martírio: Segundo a tradição, foi martirizado perto de Madras (atual Chennai, Índia) por volta de 72 d.C., morto com lanças por soldados a mando de um rei local, possivelmente por ter convertido membros da família real. Um monte perto de Chennai é chamado “Monte de São Tomé”. Suas relíquias foram posteriormente trasladadas para Edessa (atual Turquia) e depois para Ortona, Itália. Celebrado em 3 de julho.
8. Mateus (Levi)
Origem e chamado: Mateus, também chamado Levi (provavelmente seu nome original), era coletor de impostos (publicano) em Cafarnaum. Esta profissão era desprezada pelos judeus porque: (1) trabalhavam para os romanos ocupantes, (2) frequentemente cobravam a mais para lucro próprio, (3) lidavam com gentios, tornando-se ritualmente impuros, e (4) eram vistos como traidores da nação. Mateus trabalhava na alfândega, cobrando impostos sobre mercadorias.
O chamado radical: Jesus o viu sentado na coletoria e disse simplesmente: “Segue-me”. Mateus “levantou-se e o seguiu”, deixando uma profissão lucrativa. Este foi um dos chamados mais surpreendentes, pois Jesus escolheu alguém da classe mais odiada. Imediatamente, Mateus ofereceu um grande banquete em sua casa para Jesus, convidando seus colegas publicanos e “pecadores”. Quando os fariseus criticaram, Jesus respondeu: “Não vim chamar justos, mas pecadores ao arrependimento”.
Símbolo de transformação: Mateus representa a misericórdia de Deus que alcança qualquer pessoa. De explorador a evangelista, de odiado a autor sagrado. Sua experiência pessoal de perdão e aceitação permeia seu Evangelho.
O Evangelho de Mateus: Escreveu o primeiro Evangelho do Novo Testamento (em ordem canônica), provavelmente entre 70-90 d.C. Características especiais:
Dirigido principalmente aos judeus, enfatizando Jesus como o Messias prometido
Contém mais citações do Antigo Testamento que qualquer outro Evangelho
Organizado em cinco grandes discursos (paralelo aos cinco livros de Moisés)
Inclui o Sermão da Montanha completo
Único a mencionar a Igreja (ekklesia) explicitamente
Enfatiza o Reino dos Céus
Sua experiência como coletor de impostos transparece na atenção aos números e organização metódica
Ministério apostólico: Segundo tradições, após alguns anos pregando na Judeia entre os judeus, levou o Evangelho para além:
Etiópia (não a atual, mas a região da Núbia)
Pérsia (atual Irã)
Síria
Macedônia
Martírio e morte: As tradições sobre sua morte variam significativamente. Algumas fontes afirmam que foi martirizado na Etiópia, morto por soldados ou apedrejado. Outras sugerem que morreu de morte natural. A tradição mais aceita é que foi martirizado, possivelmente queimado ou decapitado. Suas relíquias estariam na Catedral de Salerno, Itália. É padroeiro dos contadores, banqueiros e coletores de impostos. Celebrado em 21 de setembro.
9. Tiago Menor (Tiago, filho de Alfeu)
Identidade: Chamado de “menor” (ou “o pequeno”) para distingui-lo de Tiago Maior, filho de Zebedeu. Este apelido pode referir-se à estatura física, idade menor, ou ter sido chamado depois ao apostolado. Filho de Alfeu (também chamado Clopas) e de Maria (uma das mulheres que estavam ao pé da cruz).
Relação com Jesus: Há debate teológico sobre se este Tiago é o mesmo “Tiago, irmão do Senhor” mencionado por Paulo (Gálatas 1:19). Na tradição católica, “irmão” significa primo ou parente próximo, pois Maria permaneceu virgem. Muitos estudiosos identificam Tiago Menor com Tiago, o líder da Igreja de Jerusalém. Marcos 6:3 menciona que Jesus tinha “irmãos” chamados Tiago, José, Judas e Simão.
Personalidade e papel: Pouco é mencionado sobre ele especificamente nos Evangelhos. Estava presente em todos os momentos importantes: eleição dos doze, ministério de Jesus, crucificação (sua mãe Maria estava lá), ressurreição e Pentecostes.
Liderança em Jerusalém (se for o mesmo Tiago): Se identificado com Tiago, irmão do Senhor:
Tornou-se o líder da Igreja-mãe em Jerusalém após a partida de Pedro
Jesus ressuscitado apareceu especialmente a ele (1 Coríntios 15:7)
Presidiu o Concílio de Jerusalém (Atos 15), decidindo sobre a circuncisão dos gentios
Paulo o visitou e o reconheceu como “coluna” da Igreja
Conhecido pela sabedoria e piedade extrema
Escreveu a Epístola de Tiago, enfatizando a fé que se manifesta em obras
Era tão respeitado que os judeus o chamavam de “Tiago, o Justo”
Martírio: Segundo Flávio Josefo e Hegesipo (historiador cristão do século II), foi martirizado em Jerusalém por volta do ano 62 d.C. O sumo sacerdote Anás II, aproveitando o intervalo entre dois procuradores romanos, acusou Tiago de violar a Lei. Segundo a tradição:
Foi levado ao pináculo do Templo e instado a renegar Cristo
Em vez disso, proclamou Jesus como o Messias
Foi lançado do alto do Templo (cerca de 30 metros)
Sobreviveu à queda e começou a orar pelos agressores
Foi apedrejado pela multidão
Um pisoeiro (trabalhador que pisava o tecido) deu-lhe o golpe final na cabeça com seu bastão
Legado: Sua morte causou indignação até entre judeus não-cristãos, contribuindo para a deposição do sumo sacerdote. É celebrado em 3 de maio junto com Filipe (ou 11 de maio no rito bizantino).
10. Judas Tadeu (Lebeu)
Nomes e identidade: Conhecido por vários nomes: Judas, Tadeu (do aramaico “corajoso”), Lebeu (do hebraico “coração”). Era filho de Alfeu (ou Clopas) e Maria, possivelmente irmão de Tiago Menor, portanto primo de Jesus. É chamado “Judas, não o Iscariotes” no Evangelho de João, para distingui-lo do traidor.
Momento significativo: Na Última Ceia, Judas Tadeu fez uma pergunta importante a Jesus: “Senhor, por que te hás de manifestar a nós e não ao mundo?” (João 14:22). Jesus respondeu falando sobre a morada do Pai e do Filho naqueles que guardam sua Palavra, explicando a diferença entre revelação exterior e interior.
Personalidade: O pouco que sabemos sugere alguém reflexivo, que buscava entender o plano divino. Sua pergunta revela alguém que desejava que mais pessoas conhecessem Jesus.
A Epístola de Judas: É autor da Epístola de Judas, uma carta curta mas poderosa que adverte contra falsos mestres e exorta os fiéis a “combater pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”. A carta menciona tradições judaicas e até livros apócrifos (Enoque, Assunção de Moisés), demonstrando seu conhecimento das escrituras.
Ministério apostólico: Segundo tradições da Igreja primitiva:
Pregou na Judeia, Samaria, Idumeia e Síria
Trabalhou na Mesopotâmia (atual Iraque)
Evangelizou a Pérsia (atual Irã), possivelmente junto com Simão, o Zelote
Chegou à Armênia, onde é co-padroeiro nacional com Bartolomeu
A tradição armênia o associa fortemente à evangelização do país
Martírio: A tradição mais aceita é que foi martirizado na Pérsia junto com Simão, o Zelote, por volta do ano 65-70 d.C. Segundo relatos:
Enfrentou forte oposição de sacerdotes pagãos
Recusou-se a sacrificar aos ídolos
Foi morto a golpes de machado ou clava
Outras versões mencionam que foi flechado até a morte
Padroeiro das causas impossíveis: Na tradição católica, São Judas Tadeu é invocado como patrono das causas difíceis e desesperadas. Esta devoção tem origem na Idade Média e se baseia em várias razões:
Seu nome ser similar ao de Judas Iscariotes fazia com que fosse pouco invocado, então se tornou patrono dos “esquecidos”
Sua carta fala de fé em meio a adversidades
A tradição atribui a ele muitos milagres em situações impossíveis
Iconografia: É representado geralmente com uma medalha ou imagem de Jesus no peito (referência à lenda de que levou o Santo Sudário ao rei Abgar de Edessa) e segurando uma clava ou machado (instrumento de seu martírio). Celebrado em 28 de outubro.
11. Simão, o Zelote (ou Cananeu)
Apelidos e significado: Chamado de “Zelote” em Lucas e Atos, e “Cananeu” em Mateus e Marcos. Ambos os termos têm o mesmo significado: “Cananeu” é a transliteração do aramaico “qan’ana” que significa “zeloso”, traduzido para o grego como “zelotes”.
Os Zelotes: Este termo pode indicar que:
Pertenceu ao partido político-religioso dos zelotes, grupo radical judeu que se opunha violentamente à ocupação romana e à colaboração com gentios. Eram revolucionários dispostos à luta armada pela libertação de Israel.
Ou simplesmente que era “zeloso” pela Lei judaica, sem necessariamente pertencer ao partido organizado.
A escolha de Simão por Jesus é significativa: se ele foi um zelote revolucionário, representa uma transformação radical, pois estava no grupo junto com Mateus, que havia trabalhado para os romanos. O Evangelho une o revolucionário e o colaboracionista sob a liderança de Cristo.
Silêncio nos Evangelhos: Simão é mencionado apenas nas listas dos doze apóstolos. Não há nenhum episódio, pergunta ou ação específica atribuída a ele nos Evangelhos canônicos. Este silêncio gerou muita especulação e tradições diversas sobre sua vida.
Transformação: Se era zelote político, sua transformação seria dramática: de alguém que buscava derrubar Roma pela espada para alguém que seguiu o caminho do amor aos inimigos e da não-violência de Cristo. Representa a conversão do zelo político violento em zelo espiritual pela verdade do Evangelho.
Ministério apostólico: As tradições sobre seu trabalho variam consideravelmente:
Pregou no Egito, levando o Evangelho ao norte da África
Trabalhou na Cirenaica (atual Líbia)
Foi à Mauritânia (norte da África ocidental)
Segundo algumas tradições, evangelizou a Bretanha (Inglaterra) junto com José de Arimateia
A tradição mais forte o coloca na Pérsia, junto com Judas Tadeu
Possivelmente pregou na Armênia
Martírio: A tradição mais aceita é que foi martirizado na Pérsia junto com Judas Tadeu, por volta de 65-70 d.C. Segundo relatos:
Enfrentou magos persas e sacerdotes pagãos
Recusou-se a sacrificar ao deus-sol
Foi morto sendo serrado ao meio (por isso é representado com uma serra na iconografia)
Outras versões mencionam crucificação
Legado: Apesar do pouco registro bíblico, Simão representa:
A capacidade do Evangelho de transformar extremismos políticos
A união de pessoas de origens e ideologias opostas em Cristo
O zelo direcionado para fins espirituais, não violentos
Celebrado em 28 de outubro, junto com Judas Tadeu, pela tradição de terem trabalhado e morrido juntos.
12. Matias
Contexto histórico: Matias é único entre os doze porque foi escolhido após a ressurreição e ascensão de Jesus, não durante seu ministério terreno. Sua eleição está registrada em Atos dos Apóstolos 1:15-26.
A necessidade da escolha: Após a traição e morte de Judas Iscariotes, o número dos apóstolos estava incompleto. O número doze tinha profundo significado simbólico:
Representava as doze tribos de Israel
Simbolizava a restauração de Israel
Era o fundamento da Nova Jerusalém (Apocalipse 21:14)
Jesus prometeu que os doze se sentariam em doze tronos, julgando as doze tribos (Mateus 19:28)
Pedro e o processo de seleção: Pedro, assumindo a liderança, reuniu cerca de 120 discípulos no Cenáculo em Jerusalém e propôs a escolha de um substituto. Ele citou profecias dos Salmos que previam a traição e a necessidade de substituição do traidor.
Critérios rigorosos: Os requisitos eram específicos e exigentes:
Deveria ter acompanhado Jesus e os apóstolos desde o batismo de João Batista
Ter estado presente durante todo o ministério público de Jesus (cerca de três anos)
Ser testemunha ocular da ressurreição
Ter permanecido fiel até a ascensão
Estes critérios garantiam que o novo apóstolo tivesse conhecimento completo da vida, ensinamentos, morte e ressurreição de Jesus.
Os candidatos: Dois homens cumpriam estes requisitos rigorosos:
José, chamado Barsabás (também conhecido como Justo) – Seu nome duplo sugere origem judaica com nome romano, comum em famílias judaicas helenizadas.
Matias – Pouco se sabe sobre sua origem, mas estava entre os discípulos mais próximos.
O método de escolha: Após apresentar os candidatos, a comunidade orou: “Tu, Senhor, que conheces os corações de todos, mostra-nos qual destes dois escolheste para tomar parte neste ministério e apostolado, do qual Judas se desviou para ir ao seu próprio lugar”.
Então “lançaram sortes” (provavelmente usando pedras ou dados marcados). Este método pode parecer estranho hoje, mas era prática comum no Antigo Testamento para discernir a vontade divina (Provérbios 16:33: “A sorte se lança no regaço, mas do Senhor procede toda determinação”). O Urim e Tumim dos sacerdotes funcionavam de forma similar. Era entendido como deixar Deus decidir, não o acaso.
A sorte caiu sobre Matias: Ele foi então “contado com os onze apóstolos”, restaurando o número simbólico de doze antes do Pentecostes.
Testemunha privilegiada: Embora não fizesse parte do círculo mais íntimo durante o ministério de Jesus, Matias foi:
Testemunha de todos os ensinamentos públicos de Jesus
Presente nos milagres e curas
Testemunha ocular da crucificação
Uma das pessoas a quem Jesus ressuscitado apareceu
Presente na ascensão no Monte das Oliveiras
No Cenáculo quando o Espírito Santo desceu em Pentecostes
Pentecostes e início do ministério: Dez dias após sua eleição, Matias estava no Cenáculo quando o Espírito Santo desceu em línguas de fogo sobre os apóstolos. Participou da primeira pregação pública de Pedro, quando três mil pessoas se converteram. Foi parte fundamental da Igreja primitiva em Jerusalém nos primeiros anos críticos.
Ministério apostólico: Como os registros do Novo Testamento não mencionam mais atividades específicas de Matias, dependemos de tradições da Igreja primitiva, que variam:
Tradição 1 – Judeia e Etiópia:
Inicialmente pregou entre os judeus na Judeia
Levou o Evangelho à Etiópia (região da Núbia/Sudão, não a atual Etiópia)
Trabalhou na Cólquida (região do Cáucaso, atual Geórgia)
Algumas fontes mencionam conversões significativas
Tradição 2 – Capadócia:
Evangelizou a Capadócia (centro da atual Turquia)
Estabeleceu comunidades cristãs na região
Esta tradição é mencionada por Nicéforo Calisto no século XIV
Tradição 3 – Macedônia:
Alguns textos situam seu trabalho na Macedônia
Teria trabalhado em regiões próximas à Grécia
Características de seu ministério: Segundo as tradições, Matias era conhecido por:
Ascetismo e vida de oração
Domínio das Escrituras judaicas
Pregação focada na ressurreição de Cristo
Ênfase na continuidade entre o Antigo e Novo Testamento
Martírio – Versão 1 (mais aceita): A tradição mais difundida afirma que foi martirizado em Jerusalém por volta de 63-64 d.C.:
Foi acusado de blasfêmia pelo Sinédrio
Apedrejado pela multidão (método judaico de execução)
Enquanto era apedrejado, caiu de joelhos orando por seus executores
Um golpe final com machado ou alabarda completou sua morte
Por isso é representado na arte com um machado ou alabarda
Martírio – Versão 2: Outra tradição afirma:
Foi crucificado, seguindo o exemplo de Cristo
Esta versão é menos documentada
Morte natural – Versão 3: Alguns textos sugerem:
Viveu até idade avançada
Morreu de causas naturais
Esta é a tradição menos aceita
Relíquias: Suas supostas relíquias tiveram história movimentada:
Inicialmente enterrado em Jerusalém
Trasladadas para Roma por Santa Helena (mãe de Constantino) no século IV
Colocadas na Basílica de Santa Maria Maior
Parte das relíquias está em Trier, Alemanha
Outras partes em Pádua, Itália
Legado teológico e espiritual:
Continuidade apostólica: Matias representa o princípio de que o ministério apostólico deve continuar. A Igreja não pode ficar incompleta. Este princípio fundamenta a sucessão apostólica na Igreja Católica e Ortodoxa.
Importância do testemunho: Só poderia ser apóstolo quem foi testemunha ocular de Jesus ressuscitado. O cristianismo se baseia em testemunho histórico, não em mitos ou lendas.
Papel da comunidade: A escolha envolveu toda a comunidade de discípulos (120 pessoas), não foi decisão isolada de Pedro. Mostra o caráter comunitário das decisões importantes na Igreja primitiva.
Discernimento espiritual: O processo incluiu oração intensa, critérios claros e confiança na providência divina.
Fidelidade recompensada: Matias não estava entre os doze originais, mas sua fidelidade e perseverança durante todo o ministério de Jesus o tornaram digno. Representa todos os discípulos “anônimos” que seguiram Jesus fielmente.
Questão teológica – Paulo vs Matias: Alguns estudiosos questionaram se Matias foi realmente a escolha de Deus, argumentando que Paulo seria o “verdadeiro décimo segundo apóstolo”. Argumentos:
Paulo teve chamado direto de Cristo ressuscitado
Teve ministério mais extenso e documentado
Escreveu grande parte do Novo Testamento
Resposta católica tradicional:
Matias cumpria os critérios apostólicos (testemunha desde o batismo de João)
Paulo mesmo se considerava “nascido fora de tempo” (1 Coríntios 15:8)
Paulo era “apóstolo dos gentios”, não dos judeus
Não há oposição: havia apóstolos além dos doze (Barnabé, Tiago irmão do Senhor)
O Apocalipse fala de doze fundamentos com nomes dos doze apóstolos (21:14), número já completo
Patronos e devoções: Matias é padroeiro de:
Engenheiros e carpinteiros (devido ao machado/ferramenta)
Alcoólatras em recuperação (tradição germânica)
Aqueles que buscam perseverança na fé
Pessoas que se sentem “substitutos” ou “segundas escolhas”
Celebração litúrgica:
14 de maio no calendário romano (antes era 24 de fevereiro)
9 de agosto no calendário bizantino
24 de fevereiro em algumas tradições locais
Mensagem espiritual de Matias: Sua vida ensina:
Fidelidade silenciosa é recompensada
Não é necessário estar sempre em evidência para ser importante
Deus escolhe no tempo certo
O testemunho constante vale mais que momentos espetaculares
A Igreja sempre encontra meios de continuar sua missão
Pequenas sementes de fidelidade produzem grande fruto
Representação na arte: É geralmente representado:
Homem maduro, barbado
Segurando um machado ou alabarda (instrumento do martírio)
Com livro ou pergaminho (Evangelho)
Às vezes com pedras (apedrejamento)
Em cenas com os outros apóstolos, especialmente no Pentecostes
Matias, embora pouco conhecido, é parte essencial da história apostólica, representando a continuidade, a fidelidade perseverante e a providência divina que guia sua Igreja através de todas as crises e transições.


